Literatura Negra Presente!

Por Gabriele Roza e Lucas de Deus

Evento literário homenageia escritor negro? Associar negritude a literatura pode provocar estranhamento em muitas pessoas. O escritor de romances, crônicas e contos Lima Barreto é o fio condutor, como o som do berimbau dentro de uma roda de capoeira ou como o toque do candongueiro no jongo, do maior encontro de literatura da América Latina.

A escritora Conceição Evaristo está na programação oficial da Flip2017. FOTO: ALLAN RICHNER/ITAÚ CULTURAL

A 15° edição da Festa Literária Internacional de Paraty começou ontem. Desde 2003, o evento recebe todo ano aproximadamente 20 mil pessoas e autores nacionais e internacionais de diversos seguimentos da literatura. Organizada pela Associação Casa Azul, a Festa que tem orçamento de mais R$ 5 milhões por ano, é responsável por valorizar editoras e autores, e agitar o mercado editorial brasileiro. Até a 14ª edição, o evento ia ‘muito bem, obrigado’ para o seu público, de maioria branca e masculina.

No ano passado, a ideia de confrontar o evento branco concretizou-se. Choveram críticas  a falta da representação e diversidade nas mesas. Entre os 39 convidados da Tenda dos Autores em 2016, 17 eram mulheres e nenhuma era negra. O Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras-UFRJ puxou a movimentação com a carta da professora e pesquisadora Giovana Xavier e com o evento “Vista nossa palavra, Flip 2016’’. Um ano depois, o ‘‘arraiá da branquitude’’ aparece de cara nova, dos 46 convidados, 24 são mulheres e 30% negros. Além disso, o escritor Lima Barreto é o grande homenageado – até então, o único escritor negro homenageado era Machado de Assis.

Lima Barreto é o homenageado da Flip 2017

A literatura negra enfim chega em um público branco. Ao colocar em destaque Lima Barreto, a FLIP tem as portas abertas para ser presenteada com a literatura negra-africana, que como tal, traz toda riqueza e complexidade literária oriunda dessa experiência vivida de negras e negros. É a vivência como alimento da escrita. A produção negra sempre existiu, forte e suficiente para resistir ao racismo. A graciosidade, a criatividade e combatividade sempre estiveram presentes nas palavras escritas pelas nossas mãos negras.

Reconhecer e assumir as contribuições do conhecimento negro-africano diz respeito não apenas aos negros, mas a toda humanidade. ‘Cara gente branca’, caso vocês ainda não tenham entendido, nós fazemos literatura e registramos nosso próprio conhecimento. Por isso, como enfatiza o slogan das Intelectuais Negras, “você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando a sua própria história”.