Como ler o mundo? A Presença da Literatura Infantil na Flip

“Neste país, a criança tem que sobreviver primeiro antes de chegar na escola”

Edimilson de Almeida Pereira, Flip 2017

Por Luana Fonseca

Cheguei em Paraty com o coração cheio de expectativas e os olhos e ouvidos atentos para registrar cada oportunidade de conhecimento. Quando desci do ônibus me senti aquela criança que sai correndo quando vê um espaço novo cheio de coisas para conhecer! Sabemos que a criança pergunta sobre tudo, investiga tudo, sem medo algum. Fui andando pelas ruas de pedras de Paraty, olhando para as portas e janelas coloridas e observando o caminhar de milhares de pessoas  pelas ruas desajustadas e a procura de algo.

Resolvi sentar em um banco da praça principal, observei os livros pendurados nas árvores e crianças correndo e lendo. Pensei comigo, que bom que tem um espaço para as crianças! Quando tive acesso a programação, notei que haveria uma palestra com o nome “Ler o Mundo” fiquei curiosa com o tema e fui conferir. Sentei no meio da multidão de adultos entusiasmada com o que estava por vir. Quando eu percebi que o tema da palestra era sobre a literatura infantil eu compreendi toda a minha caminhada até aquele espaço.

Foto divulgação Flip

A mesa era composta por Prisca Agustoni, Edimilson de Almeida Pereira¹ e mediada por Susana Ventura. Como eu estava encarregada de cobrir a #FlipPretaNuvemNegra, meus olhos e ouvidos se atentaram ao escritor Edimilson Pereira, e com uma alegria imensa abri o meu caderninho e comecei a escrever rapidamente e em letras desordenadas cada frase que ele falava. Ele iniciou a fala pontuando como nós somos múltiplos no dia-a-dia e a importância da criança na estrutura social e que ela não pode ser pensada como segmentada.

“A criança não pode ser pensada em segmento isolado de uma ordem social complexa. Ela é um elemento importante da constituição da sociedade. Temas que estão na chamada literatura para adulto devem reverberar na produção da literatura infantil.”, afirmou o escritor.

Foto Juliana Nascimento Coletivo Nuvem Negra

Como educadora e atenta às questões raciais fui atravessada por várias falas, mas na minha percepção é necessário destacar dois momentos: o primeiro foi um diálogo sobre o “Brasil ser um país de não leitores” e o contraponto do escritor em afirmar que o país tem uma tradição oral negra e indígena que não é valorizada e que precisamos aprender a ler o mundo para além da produção da escrita literária.  O segundo ponto, é sobre o espaço da escola pública e a recepção da literatura infantil versus a realidade e a vivência dessas crianças negras, indígenas e etc. Pereira em sua fala carregada de histórias e pesquisas, disse: “neste país, a criança tem que sobreviver primeiro antes de chegar na escola”. Precisamos compreender que a criança gosta de compartilhar a sua leitura de mundo, precisamos ter uma escuta e um olhar mais qualificado para elas.

Foto divulgação Flip Iberê Périssé

A literatura infantil não é uma parte da literatura brasileira, ela tem corpo e é viva. A última reflexão que pontuo é sobre o papel dessa literatura, ela é lúdica ou pedagógica? É para entreter ou ensinar? Pereira afirma que uma coisa não exclui a outra, pois “divertir-se já é um processo pedagógico de aprendizagem”. Não precisamos ensinar sobre as questões do mundo de forma fechada, o entender/ler o mundo pode e deve ser divertido.

A literatura infantil para nós negras e negros é extremamente importante, as crianças  são as nossas sementes para um mundo melhor. Ler o mundo para e com as nossas crianças é valorizar as nossas histórias, tradições e heranças ancestrais e para que isso aconteça é central visibilização e apropriação da literatura negra. A nossa literatura é central no combate ao racismo.  Vamos continuar ocupando cada espaço e ir tecendo os nossos saberes, a nossa linguagem e o “pretoguês”² para construir um país que respeita a coletividade e as mais diversas formas de compartilhar e movimentar o conhecimento.

¹ Edimilson de Almeida Pereira é poeta, ensaísta, professor e pesquisador da cultura e da religiosidade afro-brasileira. Atualmente é professor do curso de graduação e da pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A sua obra para crianças inclui, entre outros títulos, “O primeiro menino” (2003), “Os reizinhos do Congo” (2004), “Rua Luanda” (2008) e “Malungos na escola” (2010).

² Pretoguês é um conceito formulado por Lélia Gonzalez para afirmar a marca da africanização do português falado no Brasil.

Foto divulgação Flip Iberê Périssé