A Flip da “diversidade” foi representativa?

Depois de fortes críticas, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano não deixou de incluir autores negros.  Nomes como Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Lázaro Ramos, Djaimilia Pereira, Ricardo Aleixo, Marlon James e poucos outros autores e autoras negros compuseram 30% da programação oficial. Será mesmo que a Flip 2017 foi representativa?  

Em 2016, a Festa Literária Internacional de Paraty errou feio em não incluir autores negros na programação. Dessa forma mobilizou a campanha #VistaNossaPalavraFlip2016 puxada pelo grupo de estudos e pesquisas Intelectuais Negras da UFRJ, que acaba de lançar o catálogo Intelectuais Negras Visíveis. Em uma carta aberta, no ano passado, a professora da UFRJ e uma das organizadoras da campanha Giovana Xavier disse que a festa literária era um “arraiá da branquitude”. Será que este ano as coisas mudaram?  

Ao andar pelas pedras desajustadas do Centro Histórico de Paraty o mais distraído turista entra no passado do Brasil. São os reflexos racistas desse passado que fez a Flip 2016 não incluir autores negros e em 2017 ocuparem apenas 30% da programação oficial. Por mais que tenha incluído autores negros, a Festa Literária Internacional continua não sendo representativa para um país de maioria negra. A invisibilização e consequente negação do conhecimento produzido por pessoas negras tornam a literatura mais um lugar de exclusão na nossa sociedade.  

Foto Iberé Périssé divulgação Flip

O Coletivo Nuvem Negra em 4 dias de evento se dedicou em cobrir a #FlipPretaNuvemNegra. Ao nos depararmos com as atividades extraoficiais que rolavam na cidade, percebemos que a programação oficial não tinha espaço para o protagonismo negro. Apesar do homenageado ter sido o escritor Lima Barreto, encontramos a maioria dos eventos com pessoas negras fora do roteiro. O grupo Poetas Favelados, que fizeram uma vaquinha para chegar em Paraty e dormiram em um camping, disseram que o incômodo e a falta de espaço os trouxeram à Flip.   

Como disse a escritora Conceição Evaristo – e muitas mulheres negras – “nossos passos vêm de longe” e precisamos “colocar o dedo na ferida”. Escritores negros estão espalhados aos montes em uma sociedade que é cega para suas contribuições. Na sombra da invisibilização, os indígenas foram “barrados” na porta da Flip e se apertaram nas calçadas para vender suas artes em cangas estendidas. Mulheres indígenas riam tímidas quando dançavam para ganhar uns trocados dos turistas.  

“O que faz de um humano um humano?”, indagou o poeta Ricardo Aleixo, parte daqueles 30% da programação, para uma plateia majoritariamente branca. Disse que morre quantas vezes a juventude negra morrer e renasce ainda mais forte e corajoso. “O negro é uma invenção do branco” foi um dos versos do seu poema que marcou sua passagem pelo palco da Flip. Nossa morte é física e simbólica. O epistemicídioatinge nossa produção intelectual, e resistir a isso é uma luta que enquanto existir o racismo não terá fim. Uma luta que todos saem perdendo. 

Foto divulgação Flip Coletivo Jovem Repórter na Flip

Os jovens da Escola Estadual Marechal João Baptista de Mattos, do subúrbio do Rio de Janeiro, estavam perdidos até esbarrarem com o Nuvem Negra. Comentaram que os livros estavam muito caros e que não levariam nenhum. A literatura no Brasil tem um preço que não podemos pagar, precisamos tomá-la de assalto. E se tentam nos calar pegamos o microfone como D. Diva Guimarães, que nos mostrou o quanto nossa vivência, tradição oral e força nos fazem resistir e continuar lutando pela liberdade do nosso povo. Mulheres como a professora Diva e a potência de seu relato atravessado por muitos sentimentos nos inspira a continuar lutando pela igualdade de direitos.

Epistemicídio* – Conceito retirado da Tese: A Construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. Feusp, 2005. – Carneiro, Sueli 

Foto Walter Craveiro divulgação Flip